Consciência Pélvica da Mulher: o despertar de uma sabedoria tão antiga como a Vida


De todas as partes da anatomia feminina, a estrutura Pélvica é talvez a que mais mistérios encerra em si mesmo.

Durante muitos séculos, o ventre que acolhe o útero e todo o processo criativo da Mulher esteve escondida na vergonha e no pecado, um dos bastiões da cultura judaico-cristã que influenciou profundamente toda a História da Humanidade nos últimos 4 mil anos.

E, apesar da carga religiosa não ser actualmente tão visível, o que saberemos nós Mulheres do novo milénio, em relação ao nosso corpo?

Há uma infinita biblioteca de informação que transportamos nos genes herdados das nossas ancestrais.

Através do útero que nos acolheu, pudemos absorver um enorme manancial de saber intuitivo, uma linguagem corporal muito própria escrita no feminino, pronta para nos servir nas escolhas da vida.

O Corpo da Mulher é Cíclico. Desde a primeira fêmea humana, há 5 milhões de anos, que o útero e os ovários se ligam aos ciclos da Terra e da Lua: há um infinito movimento de Vida-Morte-Vida que se perpetua, quer na natureza com as estações do ano, quer nos corpos femininos com o ciclo menstrual, quer com o ciclo lunar do nosso satélite natural.

A espiral de movimento do Cosmos reflecte também esse constante alternar entre a Vida e a Morte. É assim desde o começo da Vida.

A partir do momento em que os Corpo Femininos e, em especial, o seu Ciclo Menstrual, representam directamente a evidência biológica, orgânica e natural de toda a estrutura Macro Cósmica da Vida, torna-se imperativo que cada uma de nós tome consciência plena de todo o seu funcionamento.

A Menstruação liga-se assim ao Inverno e à Lua Nova, aos grandes começos dos ciclos, ao escuro e ao vazio, onde o invisível se manifesta em absoluto. Aqui, o silêncio e o recolhimento imperam, a introspecção é a nossa bússola, a meditação a nossa prática e a hibernação do Corpo permite renovar energia para o momento seguinte. Na Menstruação, a nossa Lua está cheia de significado intuitivo, de novas sementes que se planeiam plantar, de nova relações e projectos que tomam uma ténue forma no horizonte. Aqui, escuta-se o silêncio.

A fase Folicular brinda a Primavera e o Lua Crescente, num espírito adolescente com uma energia profundamente bela e expansiva. Aqui, as primeiras manifestações brotam para o visível, florescem coloridas, ainda verdes, mas cheias de frescura. É o momento de trabalhar a fundo os campos da nossa criatividade, remexendo a terra fértil para os projectos que vingarão no momento seguinte. Aqui, dança-se com a brisa das ideias.

A Ovulação liga-se ao Verão e à Lua Cheia, o apogeu da energia criativa, sedutora e fértil. Aqui, estamos prontas para fecundar e dar à luz, manifestações presentes e luminosas, belas e sensuais. Na Ovulação, estamos férteis de ideias e de acções e as relações geram frutos deliciosos e coloridos. Colhemos, armazenamos as manifestações já maduras e voltamos a criar. Aqui, usam-se os todos sentidos.

A fase Luteínica liga-se ao Outono e à Lua Minguante, à queda da folha, do óvulo não fecundado, das ideias e relacionamentos que já não nos servem mais. AS cores da nossa paisagem corporal mudam, despimos-nos dos velhos trapos e desapegamos-nos de tudo aquilo que ficou sem significado e propósito. É o momento de escutarmos a Velha Anciã dentro de nós, de fazer compotas com os frutos maduros e de nos irmos recolhendo no útero cheio de tudo aquilo que não serve mais. Aqui, os sintomas pré-menstruais atiram-nos as raivas e as dores para fora do corpo, tal como as árvores que devolvem as suas folhas mortas à terra. Aqui, abre-se a intuição.

A Ciclicidade da Vida e dos Corpos Femininos foi outrora considerado sagrado. O Micro Ciclo das Mulheres representam directamente o Macro Ciclo Cósmico da Terra, através das suas estações e da Lua, as suas fases. Não é difícil encontrar representações culturais e ritualísticas um pouco por todas as culturas ligadas a esta mágica relação, como são as celebrações de fertilidade ou da morte ao longo do calendário anual ( a Páscoa cristã ou o Samhain Celta). Ainda hoje, a maioria das manifestações pagãs e religiosos estão profundamente ligadas a este Grande Mistério.

A Consciência Pélvica na Mulher do século XXI poderá ter uma alavanca nestes pressupostos ancestrais.

Mas é o relacionamento directo com a própria linguagem corporal, com as suas subtis formas de comunicar ou com a sua manifesta intuição, que as Mulheres poderão recuperar o acesso ao seu maravilhoso universo.

Escutar as suas dores e prazeres, compreender as oscilações naturais dos seus humores, afinar a intuição, abrir os portais da sua sabedoria interna e nutrir o corpo com alimentos limpos de químicos, com exercício moderado e um bom descanso, serão ferramentas fundamentais para a re-ligação ao seu Eu- Orgânico.

Quanto maior for a consciência e o saber femininos, maior será a sua expansão criativa, maior será a sua ligação à Terra Mãe, devolvendo a reverência sagrada perdida.

Quanto mais profunda for a re-ligação ao Eu-Orgânico, maior será a energia feminina que circulará no planeta, beneficiando a sustentabilidade, a eco-espiritualidade, e a felicidade dos seres que o habitam.

Os Corpos Femininos criam este eternos ciclos. É o momento de nos mexermos, de nos mimarmos e de nos perdoarmos das vergonhas e dos medos.

Só desta forma, a sabedoria ancestral brotará sustentável e equilibrada, em sintonia com a própria sabedoria do Macro Cosmos.

Marta Conceição, The Element Studio


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