Quando o Corpo da Mulher diz " Já Chega!"


"Dei por mim mal me conseguia mexer, paralisada de corpo e mente, entorpecida nos gestos e silenciada nas palavras.

A pressão vinha de todo o lado: do trabalho sempre "para ontem", das mil solicitações familiares, da exigência de um casamento impecável, de uma cultura que me quer perfeita em tudo, bonita, feliz, sexy, inteligente e competitiva...caí, afundei-me num oceano de lágrimas e entreguei-me ao silêncio.

Chega, disse-me o Corpo, agora quem manda sou eu!

E o Corpo congelou. Tinha os ombros em chagas e as costas pareciam ter uns dentes de um animal selvagem cravados sem piedade. Não me mexia e o peito apertava-se num nó cego.

Os emails não paravam de chegar pelo telefone, enquanto tirava o leite das mamas à pressa para deixar para o mais novo. O do meio pedia-me para lhe apertar os sapatos , enquanto a adolescente lançava-me o olhar mais terrível do mundo por não a deixar ter acesso livre à net em casa. O meu marido pedia-me para me despachar, mas claro sem sair desmazelada e de preferência com aqueles saltos preferidos que me davam o ar mais sexy do mundo, mas que me esmagavam os pés numa dor insuportável.

Chega, disse-me o Corpo, agora quem manda sou eu!

E o coração explodiu num pranto imenso, embora ninguém tivesse reparado, nem eu.

E, enquanto as lágrimas eram retidas com toda a força da mente, as dores no corpo tornavam-se cada vez mais insuportáveis e os sentidos, já turvos e drogados por tanta dor, bloqueavam-me, ao ponto de não ouvir nada do que me diziam no trabalho, de me ter esquecido de escrever o recado para a professora do filho do meio, da aula de Pilates, de falar com a minha mãe sobre a consulta de ontem, de comprar a lingerie que o meu marido queria, de adiantar o caril de peixe para o jantar, de pagar a inscrição do campo de férias da mais velha, de comprar comida para o gato, de marcar consulta no centro de saúde para o bebé, de assinar uma autorização do banco, de depilar as axilas, de dar os parabéns à minha melhor amiga, de comprar flores para casa, de apresentar o relatório à direcção, de responder aos 371 email que me chegavam a cada minuto e ...de respirar!

Chega, disse-me o Corpo, agora quem manda sou eu!

E mandou mesmo. Sem saber como, conduzi até à praia, desliguei o telemóvel, respirei e, quase esmagada por aquela lufada fresca e húmida da maresia, de repente o meu Corpo falou e aí pude sentir cada músculo a gritar, cada célula a vibrar, cada lágrima a escorrer, cada palavra que não disse.

De repente voltava a ser eu. Eu e o Corpo, que me dava as coordenadas certas para começar a minha viagem ao meu interior, à minha essência, ao regate do meu lado selvagem".

Esta é a história de tantas mulheres nos dias de hoje, com mais ou menos variações sobre o tema, que, apesar do sucesso e da realização profissional, há manifestamente algo em nós que grita lá do fundo, das entranhas do corpo, como se faltasse uma parte essencial para sermos felizes.

Se a Eva pecadora já nos parece bem distante dentro deste novo consciente colectivo feminino, se por um lado, muitas de nós não nos revemos de todo na culpa da pecadora judaico-cristã e aceitamos uma vivência mais livre de relacionamentos, de escolhas de vida e de caminhos mais alternativos, sem que nos julguem e sem que nós mesmas nos julguemos, por outro lado, há algo que está a ficar para trás, submerso no inconsciente, e que ficou pelo caminho, uma parte da Mulher Selvagem, como descreve tão bem Clarissa Pinkola Éstes no seu tão aclamado " Mulheres que dançam com os Lobos".

Se por um lado, as iguais oportunidades de acesso ao mundo nos abriram portas profissionais e de intervenção activa na vida social, económica e política, por outro fez com que nos afastássemos em demasia, em tempo e em espaço, do "ninho" ou da "toca" que sempre nos acolheu, seja a real, a casa como o resguardo, seja o metafórico, como o nosso silêncio, o nosso espaço individual, a nossa intuição, os nossos sonhos e a sabedoria dos nossos ciclos.

Esse lado selvagem, não no conceito negativo patriarcal de uma mulher não civilizada, irracional e primitiva, mas antes de uma mulher lúcida e plena das suas faculdades emocionais, criativas e intuitivas, é o lado silenciado e esquecido por todas nós e o elo fundamental para o resgate da nossa essência feminina.

Sem o lado selvagem, conhecedor absoluto das sombras da psique, dos ciclos de vida-morte-vida dos corpos, das emoções, da inteligência intuitiva e da leitura dos sonhos, a nossa vivência enquanto mulheres estará sempre incompleta, pois essa é a nossa essência.

Sem percebermos que há momentos em que temos que largar coisas, parar, mudar, escutar, abrandar, equacionar, fugir, dormir e esquecer, a vida torna-se insuportável.

Por melhores profissionais, esposas, mães, amigas e amantes que sejamos, por melhores resultados competitivos atingirmos, por melhores mães extremosas que sejamos ou amantes mais sensuais, se não nos encontrarmos com as sombras das dores e das várias mortes que nos acompanham ao longo do caminho, se não soubermos recolher-nos no tempo certo, se não escutarmos os silêncios das entrelinhas do espírito e se deixarmos de ter consciência do nosso corpo e dos nossos ciclos, haverá sempre algo incompleto, insatisfeito, lágrimas a escorrer, gritos de alma e relações falhadas.

Há inevitavelmente uma altura na vida em que muitas de nós começam a questionar se será assim tão benéfico entregar toda a nossa energia a uma corporação multinacional das 8 da manhã às 8 da noite, sacrificando os filhos, a nossa relação de mãe com eles, porque não temos tempo nem energia para ao fim do dia cuidarmos daqueles de quem mais gostamos. Achamos que não temos alternativa, nem para sair da rotina exaustiva do trabalho, nem para sermos as melhores mães e companheiras do mundo. Ou se realmente valerá a pena manter um relacionamento só porque sim.

E de repente sentimo-nos a saltar para um vazio perfeitamente desconhecido, sem qualquer cama elástica de salvação, sem nada nem ninguém para nos segurar e aí somos confrontadas coma possibilidade de uma grande iniciação, de um resgate de uma sabedoria intuitiva tão antiga como a própria Terra e que será, a partir desse momento, a nossa bússola mais fiel.

O Corpo é soberano. É sábio. É o nosso guia interior. Ele faz parte do lado selvagem e autêntico da nossa essência, porque não se submete a uma mente controladora ou a um coração ferido. Ele sabe dizer " Já chega" no momento certo e recebe-nos no momento da queda " para dentro", aconchegando-nos no escuro, nas células mais fundas, na psique inconsciente, para que possamos lamber as nossas feridas e recuperar com segurança das dores e das mortes da vida.

Marta Conceição, The Element Studio


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