Menopausa: a Sabedoria do Corpo


"Um ano ou dois antes de começar a ter faltas, comecei a ter uma sensação crescente de irritabilidade sempre que me interrompiam o trabalho ou quando tinha que lidar com um colega ou empregado que não estavam tão empenhados em cumprir tarefas como eu. Em retrospectiva, recordo que quando estava na casa dos trinta e as minhas filhas eram mais pequenas, as suas interrupções quando estava a escrever um artigo ou ao telefone eram apenas ligeiramente irritantes. O meu amor e preocupação com o seu bem estar sobrepunham-se normalmente a qualquer zanga ou frustação que pudesse sentir.", Christiane Northrup, in A Sabedoria da Menopausa.

A Menopausa não é uma doença. Não é um desequilíbrio. Não é um drama. É um processo natural, fisiológico sentido de maneira única por cada Mulher. Mas, é profundamente sentido! Tal como a adolescência, as mudanças podem ser arrebatadoras e marcar profundamente um Mulher.

Durante os anos férteis, a Menstruação funciona como uma limpeza mensal da mulher, onde as emoções e as energias sensíveis femininas fluem por entre o sangue e são devolvidas à Terra. Literalmente, o fluxo menstrual é descarregado para baixo e com ele todas as experiências emocionais e mentais desse mês podem, se assim a mulher tiver essa consciência, serem transmutadas, curadas e libertadas. Para além das suas próprias experiências, toda a família directa, especialmente os homens, beneficiam dessa "especial aura" de limpeza, e podem também sentir muitos dos seus "dilemas" resolvidos em sintonia com a sua companheira, mãe, filha ou irmã.

Por volta dos 45 anos, a energia muda. Os primeiros sinais, antes das falhas do sangue, podem ser aqueles descritos pela Drª Northrup, como se anunciassem algo que ainda não se materializou. A irritabilidade e falta de paciência pode significar precisamente o início de um processo longo: o desapego das funções de cuidadora exclusiva dos outros. Agora, a mulher lentamente começa a olhar mais para si ( embora na maior parte dos casos a um nível inconsciente e por isso não manifestado, apenas sentido confusamente) e a ter um comportamento mais reactivo quando esse espaço/tempo lhe é roubado. Como o sangue vai falhando, a descarga emocional já não se processa no sentido descendente, mas prepara-se para inverter o caminho, apesar da maioria de nós, desconhecer por completo este processo. A energia criativa e nutridora outrora materializada em sangue menstrual, começa a "dar a volta" no sentido ascendente, provocando as alterações emocionais e energéticas, em que os famosos "calores" são a sua expressão mais conhecida.

"Mas ao aproximar-me da menopausa, achei-me incapaz de tolerar distracções como a da minha filha de dezoito anos a perguntar-me «quando vamos jantar?», quando via claramente que eu estava ocupada. Porque razão, interrogava-me, era sempre responsabilidade minha ligar o fogão e começar a pensar nas necessidades alimentares da família, mesmo quando eu não tinha fome e estava profundamente absorvida num projecto? Porque não havia de ser o meu marido a começar os preparativos para o jantar? Porque ficavam todos à espera na cozinha, como se não fossem capazes de pôr a mesa ou encher um copo de água até eu entrar e a minha simples presença anunciasse »a mamã está aqui. Agora vamos comer?». Durante a perimenopausa perdia muitas vezes a paciência. Sentia um vulcão em fogo dentro de mim, pronto a entrar em erupção e uma voz cá dentro que clamava «Chega!» ",idem.

A ciência já explica que para além da modificação hormonal, o pensamento da mulher, a sua capacidade de concentração e a capacidade de combustível que flui para os centros intuitivos dos lobos temporais do cérebro estão todos ligados aos circuitos que estão a ser estruturados e são por eles afectados.

A nossa cultura ocidental moderna evita a todo o custo olhar para o Corpo envelhecido, não fértil, cheio de rugas e cabelos brancos. A cultura do eternamente jovem, belo, saudável, feliz, perfeito, magro e competitivo faz parte de um dos paradigmas de uma cultura patriarcal de fundo, que nos serve de chão há mais de cinco mil anos e que dá sustento a um mecanismo de controlo poderoso que alimenta muitas indústrias multibilionárias como a farmacêutica, a da moda e da estética.

No entanto, se observarmos a Natureza, vemos que nada é eternamente jovem, nem os seres microscópicos que vivem nas profundezas dos oceanos, nem as árvores mais belas, nem os animais mais antigos...nem nós! Aceitar esta ordem natural das coisas, entender que tudo tem um ciclo e beleza própria é o primeiro passo para aceitarmos esta fase tão especial e que nos pode dar tanto.

Uma das muitas coisas boas que as mulheres na fase menopáusica relatam é a capacidade fantástica com que começam a separar os vários aspectos da vida, a dar espaço e tempo a si próprias, mas sobretudo algo que desperta como um vulcão: a sabedoria interior. É a partir desta fase, quando efectivamente a energia descendente mensal deixa de circular para fora de si, que a Mulher passa a usar a sua energia intuitiva e criativa para si própria e isto é fisiologicamente sentido: os "calores" ou afrontamentos. A maioria das mulheres sentem por alguns anos estes "calores" que, nas suas descrições, "lhes sobe do peito até à cara", produzindo rubor, suores e desconforto; a sabedoria popular descreve como se " o sangue fervesse por dentro"...Este sintoma tão bem descrito é pois a energia a reverter o sentido e a nutrir a mulher de uma sabedoria que nunca até então tinha sentido e que passa a alimentar novos centros emocionais: o coração, a comunicação e a intuição..

Que cuidados especiais deve ter uma Mulher em Menopausa?

Acima de tudo, a Mulher deve encarar e aceitar de corpo e alma esta fase que não mais é do que um novo rito de passagem para outra ainda mais profunda - a da Mulher Pós-Menopausa, com 60,70,80 ou mais anos de idade, a idade da plena Sabedoria.

Tal como a adolescência que marca a transição da infância para a idade adulta, a Menopausa regista um momento solene de passagem para essa idade de ouro da Mulher Xamã. As culturas antigas pré-colombianas da América do Sul e Central, como os Maias e Toltecas acreditavam que a mulher "nascia" só aos 52 anos, altura em que as suas regras terminavam, sendo reverenciada por toda a sociedade. Por cá, é comum ouvirmos com mulheres na casa dos quarenta a antecipar alguma preocupação sobre a "temível" Menopausa e toda a imagem negativa criada à volta das rugas, da flacidez, dos cabelos brancos e da secura vaginal. É com frequência que são aconselhadas a fazer um plano de substituição hormonal que poderá ir até perto dos 70 anos, para que os "calores e suores" não as envergonhem em público.

Aceitar o ciclo da vida e do corpo é o início de um caminho muito feliz. Cuidar de si, nutrir e purificar o corpo com alimentos ajustados às novas necessidades calóricas e nutricionais, fazer exercício físico que mobilize as articulações para manter a elasticidade e tonicidade dos músculos e ossos são muitas das ferramentas ao alcance da Mulher na casa dos cinquenta.

Principalmente, aceitar que a energia que sobe agora em direcção ao seu maior centro energético que é o coração é dirigida sobretudo a si própria para que a Sabedoria acumulada ao longo da vida seja útil para o seu corpo e alma, para os que a rodeiam e para a o espaço e tempo que em que habita...e precisamos muito deste sabedoria doce...!

Seja feliz!

Marta Conceição, co-proprietária do The Element Pilates Studio, mãe de 3 rapazes, especializada em Pilates e Reabilitação Pélvica; desenvolve programas específicos de Consciência Pèlvica e Corporal para as várias fases da Mulher; entusiasta feminista, ecologista e de alimentação orgânica e de estudos do Sagrado Feminino em Portugal


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